“OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO”, OBRA DE VINÍCIUS DE MORAES

Vinícius

Hoje é dia de Vinícius de Moraes, na sequencia de publicações no blog COLETIVO, de poetas que escreveram sobre os trabalhadores e suas lutas, especialmente por ocasião do 1º de Maio. Vinícius nasceu em 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro. Foi cantor, compositor, jornalista e diplomada. É um dos poetas mais populares do Brasil, carinhosamente chamado de “poetinha” pelo amigo Tom Jobim.

Embora ligado à canção brasileira, ao teatro e ao cinema, Vinícius sempre teve a poesia como sua principal vocação. A junção da poesia com a música o levou a parcerias que fazem parte da história da MPB, com Tom Jobim, Chico Buarque e Toquinho, entre outros.

Aos 20 anos, em 1933, o “poetinha” lança seu primeiro livro, intitulado O caminho para a distância, mas é dois anos mais tarde, ao lançar Forma e exegese que vai ser reconhecido como poeta, com o livro recebendo elogios do poeta Manoel Bandeira.

Em 1941, Vinícius começa no jornalismo e nos estudos para a carreira diplomática. Em 1946 assume o primeiro posto diplomático, em Los Angeles, EUA. Em 1954, Orfeu da Conceição, sua peça para o teatro, é encenada pela primeira vez, vindo depois a ser adaptada para o cinema. Nessa peça, Vinícius se inspira no drama da mitologia grega para recriá-lo no ambiente do carnaval brasileiro.

Com o golpe militar de 1964, se coloca ao lado dos que lutaram pela democracia. Em 1968, quando da edição do Ato Institucional No 5 – AI5, realizando um show em Portugal, Vinícius faz do palco um ato de protesto, lendo seu poema “Pátria Minha”. Foi exonerado dos serviços no Itamaraty no ano seguinte, por ordem direta de Arthur Costa e Silva.

Em 1979, em plena greve dos metalúrgicos no ABC paulista, Vinícius de Moraes lê, em uma das assembleias lotadas de gente, “O Operário em Construção”, sendo aplaudido por milhares de trabalhadores. O poeta faleceu no ano seguinte, no dia 9 de julho, em sua casa na Gávea, vítima de embolia pulmonar. O parceiro Toquinho estava a seu lado.

“Operário em Construção” foi escrito em 1956, do começo ao fim falando da tomada de consciência de um operário da construção civil, mas remetendo a consciência de todos os trabalhadores.

O poema é escrito no melhor estilo rimado das poesias do cordel popular e é totalmente inspirado na passagem bíblica do Evangelho de Lucas, em que Jesus, no deserto, enfrenta as tentações do demônio. A passagem é transcrita por Vinícius antes de iniciar o poema, tal e qual:

“E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo.

E disse-lhe o Diabo:

– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.

E Jesus, respondendo, disse-lhe:

– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.

Lucas, cap. IV, vs. 5-8.

No poema, esse embate é transferido para o patrão, que tenta comprar a consciência do operário e para seu “não” como resposta. Mas nesse embate está toda riqueza do poema. Vinícius mostra a consciência como uma conquista de visão e de conhecimento do trabalhador: “o que via o operário, o patrão nunca veria”.

Poucas são as criações da literatura que deram conta de mostrar, de forma tão consistente e bonita, a lógica das relações de trabalho, incluindo a percepção da exploração pelos trabalhadores e a noção de que não acontece com um apenas, mas com todos:

“O operário via as casas

E dentro das estruturas

Via coisas, objetos

Produtos, manufaturas.

Via tudo o que fazia

O lucro do seu patrão

E em cada coisa que via

Misteriosamente havia

A marca de sua mão.”

Também estão ali a delação de companheiros que preferem unir-se aos interesses dos patrões e delatar o companheiro, mas acima de tudo está a consciência histórica:

“E o operário ouviu a voz

De todos os seus irmãos

Os seus irmãos que morreram

Por outros que viverão.”

Pode-se dizer que Vinícius nesse poema foi um pedreiro mestre no ofício. Casa palavra colocada no prumo, assentada no todo. Uma verdadeira obra prima.

Como se trata de um longo poema, aqui publicamos seus trechos principais.

Para ler o poema na íntegra, clique aqui

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